quinta-feira, 11 de junho de 2009

Religião, magia e amor

Nas religiões alheias seus deuses agem

E são tidos ou lidos pelos alheios como mágicos.

Na religião não alheia seu deus age

E não é tido ou lido como mágico.

Critérios analíticos e sintéticos sobejantes no alheio.

Não sedo mágico aqui porque ali?

Liberdade é a magia do amor.

Se deus intervém assim

Não intervém, faz magia.


Alexandre Fonseca
25.jan.09

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ver e reconhecer Jesus (João, 1,29-34)


João Batista, filho de Zacarias e Isabel, prima de Maria santíssima viu Jesus e o reconheceu como Cordeiro de Deus. Em outra ocasião João manda dois de seus discípulos perguntarem a Jesus se ele era o Messias. Sabe como Jesus respondeu? Primeiro Jesus agiu: Curou, libertou, protegeu que sofria e depois mandou os discípulos de João dizer o que viram e ouviram (cf. Lc 7,18,23; Mt 11,1-19)

Quero dedicar esta reflexão sobre a importância do ver e do reconhecer Jesus.

É preciso que a gente veja e reconheça Jesus. É complicado ver e reconhecer Jesus? Não, não é. Vou contar uma história que aprendi do padre Martinho, experiente missionário lazarista, que trabalhou muitos aos no Maranhão. Ele narrou a seguinte história:

Numa cidade como essa aqui de Quixeramobim tinha uma velha, cabelo meio despenteado, que todo dia de manhã saia de casa com uma vassoura, praticamente atravessava a cidade, passava de frente a igreja e seguia adiante. Nunca ninguém viu essa senhora freqüentando a missa. Alguém botou um apelido nela: Maria Vassoura. Então, cada dia, ela passava e muita gente gritava: lá vai a Maria Vassoura; Ei Maria Vassoura! Gritavam. As crianças tinham medo da Maria Vassoura.

Até que um dia umas três pessoas da igreja católica resolveram seguir a Maria Vassoura para ver aonde ela ia todo santo dia com aquela vassoura. Sem dizer nada, seguiram a Maria Vassoura. Certo momento Maria Vassoura entrou em uma casinha, no final de uma ruazinha da cidade. Essas três pessoas entraram na casa. Viram um casal de velhinhos que moravam sozinhos e prostrados em suas redes. Maria Vassoura barria a casa; banhava os velhinhos; preparava a comida. As três pessoas, muito admiradas, perguntaram: são seus pais? Maria Vassoura respondeu: Não, não são meus pais. Nem mesmo eu os conhecia. Certa vez andando por aqui vi os dois abandonados e desde aquele dia passei a cuidar deles. E Maria Vassoura concluiu: cuido deles como quem cuida de Jesus. Desde aquele momento a cidade inteira passou a olhar Maria Vassoura com outra maneira.

Minha gente tem muito Jesus no nosso meio e tem muita Maria Vassoura também! Precisamos aprender a olhar e ver olhar e o Reino de Deus aqui em Quixeramobim; precisamos olhar e reconhecer Jesus no nosso meio.

Precisamos aprender a olhar. Precisamos educar nosso olhar. Tem gente que olha com inveja, com raiva, com maldade. Tem gente que tem olho gordo, mal olhado. Tem até rezas apropriadas para se proteger destes tipos de olhados.

Minha gente boa de Quixeramobim precisamos mudar nosso modo de olhar. Olhar com atenção, com fé, com esperança, com caridade. Precisamos aprender a ser como Maria Vassoura que sabia ver e reconhecer Jesus. Mesmo não freqüentando a missa, as coisas da igreja, sabia ver Jesus naquele casal de velhinhos. Precisamos aprender e fazer como a Maria Vassoura: ver e reconhecer Jesus em que sofre.

E onde podemos aprender isso? Qual a escola que devemos freqüentar?

Tem uma escola que ensina a ver e reconhecer Jesus. Uma escola gratuita, uma escola dada de graça por Deus para nós – a escola da vida.

Minha gente! Na escola da vida podemos aprender a olhar e ver como a Maria Vassoura. E a escola de ensino fundamental da vida é a família! Isso mesmo! Seja a família de sangue, de nascimento, seja a família adotada. Na família a gente aprende a olhar, a falar, a conviver, a brigar, a desbrigar, a perdoar, a repartir, a rezar.

A família é a escola de ensino fundamental da fé, é a escola de ensino fundamental da esperança, é a escola de ensino fundamental da caridade.

Onde vocês pensam que João Batista aprendeu a ver e reconhecer Jesus? Não foi na sinagoga, nem no templo. Ele aprendeu na sua família: com Isabel, com Zacarias, seus pais; com Maria e com José, seus tios.

Precisamos aprender a olhar com fé. E o que é olhar com fé? É olhar com confiança. Confiar em Deus. Acreditar que somos semelhantes a Deus. Mais ainda que isso: que nosso irmão e irmã que sofre é o próprio Jesus. Olhar, ver e reconhecer o Reino de Deus presente em Quixeramobim.
Precisamos aprender a olhar com Esperança. E o que é olhar com esperança? É olhar com otimismo. Enfrentar as dificuldades certos de que Deus caminha com a gente, ao nosso lado. Apesar das doenças, da violência, das traições, das brigas, dos desarranjos, acreditar que vai melhorar. Como dia o ditado: “Tá ruim, mas tá bom!”
Precisamos aprender a olhar com caridade. E o que é olhar com caridade? É olhar com amor, com ternura, com paciência. É olhar com o coração desarmado. É viver como a Maria Vassoura!

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Alexandre Fonseca
Homilia na trezena de Santo Antonio de Quixeramobim - CE, 06/junho/09.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O preço de uma vida


Um homem entra em uma locadora de DVD, dirige-se ao proprietário que se encontra sentado em um tamborete. Sem pronunciar nenhuma palavra saca de um revólver e dispara quatro tiros na cabeça da vítima. Depois foge do local.

A cidade de Quixeramobim amanhece marcada com mais um crime de encomenda ou pistolagem. É o tema principal nas rodas de conversas. Quem mandou matar? Por que? Lembram do último caso? Questões como estas brotam com imensa fartura.

Certa hora, entro numa conversa e pergunto?
- “Quanto deve ser que se paga para um pistoleiro fazer um “serviço” deste?
Alguém diz:
- “acho que uns quinhentos reais”.
- “Quinhentos reais??!! Acha que seria apenas isso?” Reajo.
- “Ora, quando o caso é mais sofisticado, talvez uns mil reais, não mais que isso!” Respondeu sem titubear meu interlocutor.

Martela em minha mente: Quanto vale uma vida? Quais as raízes deste procedimento frio e desumano?

No ano passado aconteceu em Fortaleza um assassinato de encomenda cujo desfecho aponta até onde vai a banalização da vida e perversão do ser humano. Alguém contratou um pistoleiro para matar um vendedor de livros usados. Combinam o preço, metade do valor naquele momento e a outra metade depois da execução do crime. O matador inusitadamente resolveu terceirizar tarefa: contratou, por um pequeno preço, um outro assassino, que era menor de idade.

Na Região Metropolitana de Fortaleza, 85 pessoas foram assassinadas com características de pistolagem entre janeiro a outubro de 2008 (cf. Diário do Nordeste, 08/12/08). É aterrorizador o aumento vertiginoso de casos. Em 1997 foram registrado 8 casos em todo o Estado do Ceará.

Prevalece em nosso meio o mecanismo de controle social utilizado desde o início do século XVII - a eliminação física dos oponentes ou desafetos. Modernizaram-se, talvez, as armas e os veículos de fugas dos executores. Porém, barbárie moderna ou atrasada é sempre barbárie.

Precisamos romper com nossa indiferença, expressar nossa indignação e exigir procedimentos eficazes do poder público, quais sejam apurar os fatos, prender e julgar mandantes e executores.

Alexandre Fonseca

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Santíssima Trindade: perfeição na diversidade


O cristianismo anuncia que Deus revela-se na pluralidade. Deus é três na perfeita unidade. Sempre cabe ressaltar que essa unidade não é uniformidade. São três pessoas distintas, mas não separadas. Uma relação dialógica alicerçada no amor que forma uma perfeita comunhão. Esta possibilidade de deferentes viverem numa convivência fraterna em eterna harmonia e paz apresenta-se hoje como um relevante paradigma.

Ocorre que o cristianismo chegou neste continente revestido de preconceito e intolerância religiosa, imbuído de arrogância teológica. Os missionários, tanto da Igreja Católica como das Igrejas da Reforma, costumavam satanizar as variadas concepções de divindades indígenas e impunham a sua. Cada Igreja adotava a prerrogativa de ser única e verdadeira, anunciando o mesmo Deus trino. Ainda hoje, infelizmente, prevalecem algumas distorções que inviabiliza ou retarda o processo de aproximação e diálogo.

Talvez o desafio de maior envergadura deste novo século seja o pluralismo religioso. Dialogar inspirados no modelo paradigmático da Santíssima Trindade pode ser um caminho frutuoso. O Secretariado para os não Cristãos da Igreja Católica de Rito Romano define diálogo inter-religioso como o “conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outras confissões religiosas para um mútuo conhecimento e um recíproco enriquecimento” (SECRETARIADO PARA OS NÃO CRISTÃOS. A Igreja e as outras religiões – diálogo e missão. 3ª ed., São Paulo, Paulinas, 2003, p.3).

O diálogo requer abertura e acolhimento. Não cabem atitudes como auto-suficiência, arrogância, sentimento de superioridade. No diálogo a diversidade é tomada como preciso valor. Exige humildade na busca da verdade. “É indispensável que a busca da verdade ocorra sem restrições mentais, em espírito de acolhida e abertura, pois ninguém pode pretender uma assimilação plena deste horizonte que está sempre adiante”(TEIXEIRA, Faustino. Ecumenismo e diálogo inter-religioso. A arte do possível. Aparecida, Santuário, 2008, p. 146).

Inspirados na Santíssima Trindade poderemos enveredar pelos caminhos do diálogo na construção de um mundo de paz.

Alexandre Fonseca

domingo, 7 de junho de 2009

Escrever, escrever, escrever


E quando não tiver assunto para escrever? Escreva! Escreva que o assunto aparece. Se não vir, insista. Não se fala sem ter assunto? Tratar amenidades numa roda de amigos, falar ‘miolo de pote’, muitas vezes, são momentos transcendentais.

Escrever tem a magia de se grudar no papel assuntos dos mais diversos, possíveis e impossíveis, como, por exemplo, escrever sem assunto. Outro dia, lembrei-me agora, vi duas crianças brincarem de bola. Corriam e riam bastante. Certa hora a menor delas virou-se para o parceiro e disse: “estou cansado, vamos brincar de descansar!”. A sabedoria da criança de olhar o mundo na ótica da arte do brincar é fantástica e encarna-se aqui neste momento: brinco de escrever, e quando canso, descanso brincando de escrever.

Escreva. É possível, tudo é possível. Mesmo escrever sem assunto. É como namorar. Tem momentos sem assunto. A plenitude está ali acercada pelo silêncio da presença. Qualquer palavra atrapalha. Nem gesto precisa, basta está li perto, sentindo o amor exalar-se em faceirice.

Então escreva! Escreva que a inspiração vem. Ela tem seus truques e magias; seus modos e segredos; jeitos que nos deixam sem jeito. Tece-se emergindo de mundos inimagináveis que moram ou passeiam no nosso íntimo. Vem e invade sem invadir e, de repente, está escrito um texto.

Alexandre Fonseca

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Andarilha


Arranjei um apelido para a vida:
Andarilha.
É.
Andarilha.
Eis a nossa vida!
O que queria mais?
Fixar o coração numa estrada e ficar tentando segurar o trem com as unhas e os olhos vendo-o escapar?
Acho que não!
O negócio é aventurar-se nesta viagem
Dar sugestão de roteiro,
Arredondar o rosto com sorriso nas coisas boas que aparecem

Sim!
Elas existem
E podemos desenhar mais!
A questão é que temos,
Carregamos em nós,
Uma teima
Uma cisma em não ser andarilho

Vida é ida,
Mas cismamos,
Implicamos em ter medo de ir
Ficamos desejando saber tim tim por tim tim desta ida
Colocar os riscos no bolso e andar seguro,
Feito um deus onisciente
Dono absoluto dos segredos, surpresas e mistérios deste ir.
Ficamos brincando de esconde-esconde com a gente mesmo
E acabamos indo por ir
Com os riscos feito ciscos
Nos olhos e no coração.

Andarilha não é limite
É se assumir e viver como se é
O que somos de mais belo
É a liberdade de se fazer.

Alexandre Fonseca
13/junho/1989

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ato de amor



Poesia que rasga,
que fere,
que rompe,
que anuncia.
Poesia cristalina cristalizada
No colo, no suor e no sangue
De um povo
Que se mostrou povo
Quando gritou: basta!
Abasteceu sua luta
E arrancou a vitória na marra e no amor,
No calor de amarguras e alegrias.

Poesia que sobreviveu
Galgando por entre sombras e brechas,
Veredas espinhosas
Caminhos para a vida.

Poesia que agora
Explode por todos os claros:
Revolução é um ato de amor!

Alexandre Fonseca
Recife, março/1987.